O dólar fechou a sexta-feira (10) em baixa ante o real e novamente próximo dos R$ 5,00, acompanhando o recuo da moeda norte-americana no exterior, onde investidores voltaram a demonstrar otimismo em relação ao cessar-fogo entre EUA e Irã.
O dólar à vista encerrou o dia com queda de 1,03%, a R$ 5,01, o menor valor de fechamento desde 9 de abril de 2024, quando atingiu R$ 5,0067. Foi a terceira sessão consecutiva de perdas para a moeda norte-americana.
Na semana, a divisa acumulou baixa de 2,90% e, no ano, queda de 8,72%.
Às 17h15, o dólar futuro para maio -- atualmente o mais líquido no mercado brasileiro -- cedia 0,94% na B3, aos R$ 5,0345.
Desde que EUA e Irã fecharam um acordo de cessar-fogo, na noite de terça-feira, o dólar tem enfrentado ajustes de baixa em todo o mundo, com investidores desmontando posições defensivas na moeda norte-americana.
Ainda que o estreito de Ormuz siga travado, prejudicando o transporte global de petróleo, a expectativa de que EUA e Irã possam negociar a paz deu força a divisas de países emergentes, como o real, o peso mexicano e o peso chileno.
No Brasil, o dólar à vista atingiu a menor cotação da sessão, de R$5,00, às 16h14, já na última hora de negócios, sendo que desde o período março-abril de 2024 a divisa não exibia valores próximos dos R$5,00.
“A redução da aversão ao risco com expectativa de cessar-fogo e recuo do DXY (índice do dólar) para abaixo de 100 provocaram alta do real nos últimos dias, que se aproximou da maior cotação do ano”, destacou o diretor da consultoria Wagner Investimentos, José Faria Júnior, em análise enviada a clientes pela manhã.
“O dólar ainda tem espaço para cair um pouco mais a depender do movimento do DXY”, acrescentou.
Às 17h10, o índice do dólar -- que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas -- caía 0,21%, a 98,669.
No início do dia, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou que em março o IPCA, o índice oficial de inflação, subiu 0,88% em relação a fevereiro, acima da taxa de 0,77% projetada por economistas ouvidos pela Reuters. Nos 12 meses até março, o IPCA avançou 4,14%, também acima dos 4,00% projetados.
O IPCA de março acima do projetado pelo mercado fez as taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) de curto prazo subirem, com o índice reforçando as apostas de que o Banco Central cortará a Selic em apenas 25 pontos-base no fim do mês, e não em 50 pontos-base. Atualmente a Selic está em 14,75% ao ano.
O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos -- cuja taxa hoje está na faixa de 3,50% a 3,75% -- vem sendo apontado como um dos fatores para atração de investimentos ao país, o que conduziu as cotações do dólar a patamares mais baixos ante o real nos últimos meses.
No fim da manhã, o Banco Central vendeu 50.000 contratos de swap cambial tradicional para rolagem do vencimento de 4 de maio.
Ibovespa bate recorde
O Ibovespa fechou em alta renovando máximas e fechando acima dos 197 mil pontos pela primeira vez, com agentes financeiros na expectativa de negociações de paz entre Estados Unidos e Irã previstas para o fim de semana.
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa subiu 1,12%, a 197.323,87 pontos, novo recorde de fechamento, após marcar 197.553,64 na máxima da sessão, novo topo intradia. Na mínima, registrou 195.129,25 pontos. Na semana, avançou 4,93%.
O volume financeiro nesta sexta-feira somou R$ 33,7 bilhões.
Autoridades norte-americanas e iranianas reúnem-se em Islamabad, no Paquistão, a partir de sábado, poucos dias após o anúncio de cessar-fogo em uma guerra que começou no final de fevereiro com ataques dos EUA e de Israel contra o Irã e se espalhou pelo Oriente Médio.
Não se espera uma discussão fácil para um desfecho definitivo e ainda existem muitas incertezas, mas, por ora, tem prevalecido a avaliação positiva de que EUA e Irã estão buscando um caminho para reduzir as tensões.
No exterior, o barril do petróleo sob o contrato Brent fechou em queda de 0,75%, a US$ 95,20, enquanto o S&P 500, uma das referências do mercado acionário norte-americano, encerrou com declínio de 0,11%.
O Ibovespa tem resistido à aversão a risco e à busca por liquidez desencadeadas pelo conflito. Apesar do desempenho negativo do Ibovespa em março, a bolsa ainda registrou entrada líquida de capital externo, que persiste em abril.
“Daqui para frente, assumindo que a trégua se mantenha, acreditamos que o Brasil continuará a apresentar bom desempenho”, avalia Emy Shayo, co-head de estratégia de ações de mercados emergentes e chefe de estratégia para América Latina e Brasil, conforme relatório assinado também por Cinthya Mizuguchi.
Shayo ressaltou, porém, que vê uma rotação entre setores, com aqueles que mais sofreram desde o início da guerra - especialmente o setor financeiro - recuperando parte da liderança.
Nesta sexta-feira, além do cenário externo, investidores também repercutiram a pauta macroeconômica brasileira, com o IPCA de março subindo 0,88%, maior avanço em cerca de um ano, superando as previsões de economistas, que apontavam alta de 0,77%.
“Embora uma leitura cheia ruim, e que limita o Copom no curto prazo, parte significativa da surpresa altista veio de itens como combustíveis, refletindo impacto direto do choque dos preços do petróleo”, ponderou o economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, Bruno Perri.
“Se de fato houver a normalização destes preços, com um acordo de paz para o conflito, é razoável esperar a reversão destes preços (que pesaram no IPCA)”, acrescentou.