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A Suíça nas Copas: ecologia, política, provocação e uma eliminação inesquecível
A terra da neutralidade, do sigilo bancário e do chocolate, descobriu que Copa do Mundo não aceita declaração de não-intervenção. Protestou contra bomba atômica francesa, fez gesto albanês na cara da torcida sérvia e foi eliminada em 2006 sem levar um gol. E sem fazer unzinho nas oitavas. Nem de pênalti! Precisão tem limites.
Por Dulina Fernandes
Publicado em 18/06/2026 12:16
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Existe uma ironia deliciosa no fato de que a Suíça, o país que inventou a neutralidade como política de Estado e rigorosos sigilos bancários, tenha protagonizado alguns dos episódios mais politicamente carregados das Copas do Mundo. Com 13 participações em Mundiais, a seleção vive duas histórias distintas: na era pioneira, chegou três vezes às quartas de final, em 1934, 1938 e 1954; na era moderna, repetiu cinco vezes as oitavas desde 1994, sempre parando ali. Uma precisão quase suíça de ser, no sentido mais relojeiro e menos boleiro do termo: funcionam impecavelmente, mas jamais te surpreendem com algo inesperado. 

Só que “inesperado” é exatamente o que a Suíça entregou quando decidiu, por bem ou por mal, abandonar o manual da prudência. Em campo, a seleção já expôs testes nucleares franceses, deflagrou uma crise diplomática com um simples gesto de mãos e conseguiu a façanha estatisticamente absurda de ser eliminada de uma Copa sem levar um único gol nos pés, e nem fazer de pênalti. É o tipo de performance que exige uma caixa de chocolates suíços para consolar o torcedor. 

Entre defesas impecáveis e dramas inesperados, a Suíça virou uma espécie de personagem secundário importante na história das Copas do Mundo. Não é sempre a seleção que levanta taças, longe disso na verdade, mas frequentemente é aquela que nos deixa com uma boa história para contar depois. 

Lago Lucerne, um dos points mais emblemáticos da Suíça

Uma presença constante na sombra dos gigantes 

A Suíça é tão discreta que ostenta o orgulho de ser uma das seleções europeias mais assíduas em Copas do Mundo, acumulando participações que a colocam na primeira página do livro de presenças do torneio, e a gente mal lembra disso. Segundo os registros históricos da FIFA, os suíços já carimbaram o passaporte para o Mundial em 13 ocasiões incluindo a Copa de 2026, um número que supera a média do continente e mostra uma consistência admirável para um país de dimensões tão reduzidas. Eles não costumam erguer a taça, é verdade, mas a burocracia de se classificar eles dominam como ninguém. 

 Apesar do currículo robusto, a Suíça não lidera o topo da cadeia europeia no quesito assiduidade. Nações como Alemanha, Itália, França, Espanha e Inglaterra carregam um histórico de participações consideravelmente maior, tendo o peso de potências tradicionais. Por outro lado, disputou mais Copas do que Holanda, Polônia ou Portugal. É uma espécie de classe média do futebol europeu. 

Logo da Federação Suíça de Futebol

Uma faixa que parou o mundo 

Em 6 de setembro de 1995, durante as eliminatórias para a Eurocopa de 1996 e não da Copa do Mundo, como muitos confundem, a Suíça protagonizou um dos momentos mais politizados do futebol moderno em Gotemburgo, contra a Suécia. Durante a execução do hino nacional, os jogadores suíços desenrolaram um lençol com a frase “STOP IT CHIRAC”, pintada com spray preto. O alvo da manifestação era o então presidente da França, Jacques Chirac, que havia ordenado a retomada dos testes nucleares no Atol de Mururoa, na Polinésia Francesa. 

O gesto foi calculado com a precisão de um relógio nacional e colocou a Suíça, país historicamente neutro, em uma posição inusitada de ativismo político no esporte. As câmeras de televisão capturaram o momento exato em que atletas profissionais transformavam o gramado de um estádio sueco em tribuna política. O protesto chamou tanta atenção porque raramente futebol e diplomacia dividiam o mesmo espaço de maneira tão explícita. O episódio foi amplamente registrado pela imprensa internacional como uma manifestação incomum no futebol. 

O mentor do desafio 

 O cérebro por trás da iniciativa foi Alain Sutter, meia suíço conhecido tanto pelo talento quanto pelo estilo fora do padrão. Sutter era uma figura diferente no futebol dos anos 1990:  com discurso alternativo e envolvimento em questões sociais, em especial o desmatamento da Amazônia. Ele convenceu companheiros a participarem do gesto, mostrando que nem todo craque quer apenas discutir o bicho ao final do jogo. 

Alain Sutter, o mentor do protesto (Crédito: Reprodução)

Sutter é considerado um jogador notável no futebol suíço. Tendo passado pelo  Grasshopper, Nuremberg, e Bayern de Munique. Encerrou a carreira em 1998 no Dallas Burn, nos Estados Unidos, acumulando 68 convocações pela seleção suíça. 

Como reagiu a FIFA? 

A resposta imediata foi de indignação, mas as punições ficaram no papel. A ação de Sutter não resultou em nenhuma sanção, seja da Federação Suíça de Futebol ou da UEFA, o órgão responsável pelo futebol europeu. Mas resultou na introdução, pela UEFA, de uma proibição rigorosa de manifestações políticas durante os jogos. Em outras palavras: os suíços saíram impunes do protesto, mas deixaram como legado um novo artigo no código de conduta do futebol europeu. 

Objetivamente, porém, não dá nem pra atribuir uma vitória por pontos a Sutter e seus companheiros. Os testes nucleares de Mururoa viraram tema de debate até nos programas esportivos por semanas. Mas não foi o suficiente para a França mudar de ideia. Poucos dias depois dos protestos Chirac ordenou a realização de seis testes nucleares (quatro em Mururoa e dois em Fangataufa). Estudos posteriores revelaram que cerca de 110 mil pessoas na Polinésia Francesa foram expostas a níveis significativos de radiação, com aumento de casos de câncer na região após a realização destes experimentos. 

Imagem de um dos testes de bombas nucleares francesas sobre Mururoa (Crédito: Reprodução)

O Barril de Pólvora nos Bálcãs 

No dia 22 de junho de 2018, em Kaliningrado, o que parecia ser um duelo corriqueiro do Grupo E da Copa da Rússia entre Suíça e Sérvia revelou-se uma das partidas mais carregadas de história e política do torneio. Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri marcaram seus gols na vitória suíça por 2 a 1 sobre a Sérvia cruzando as mãos para fazer o gesto da águia bicéfala, amplamente interpretado como uma homenagem à bandeira da Albânia. O que parecia uma simples comemoração foi, na verdade, uma declaração política feita diante de um dos públicos mais sensíveis possíveis ao tema. 

A águia bicéfala é vista como símbolo de resistência no Kosovo, que declarou independência em 2008 em um gesto que a Sérvia ainda se recusa a reconhecer. Fazer esse gesto diante da torcida sérvia, em território russo, em uma Copa transmitida para bilhões de pessoas, foi o equivalente a jogar uma tocha num depósito de munição. 

 Xhaka, cujo pai albanês foi preso político sérvio, tendo passado mais de três anos na prisão por protestar contra o domínio comunista iugoslavo no Kosovo, retém forte lealdade a terra natal de seu pai. Já Shaqiri nasceu na cidade kosovar de Gjilan, mas foi forçado a se mudar para a Suíça com seus pais kosovar-albaneses ainda criança. Ele adquiriu a cidadania suíça por residência, já que a família não pôde retornar à sua terra quando o massacre étnico promovido pela Sérvia eclodiu. Mais de 200 mil albaneses foram deslocados, com relatos de assassinatos, estupros e destruição de vilarejos. Entre 13 mil e 14 mil pessoas morreram durante o conflito, a maioria civis albaneses. Para Xhaka e Shaqiri, jogar contra a Sérvia não era apenas um jogo, era história em movimento. 

A vaquinha on line 

Na Sérvia, a repercussão foi imediata. O jornal Blic afirmou que Xhaka “vergonhosamente provocou nossos torcedores”, descrevendo como ele teria tentado atrair a atenção das câmeras após fazer o gesto. Na segunda-feira seguinte ao jogo, a FIFA multou Xhaka e Shaqiri em US$ 10 mil dólares cada por “comportamento antiesportivo contrário aos princípios do fair-play.” O capitão suíço Stephan Lichtsteiner, que também reproduziu o gesto nas comemorações, recebeu uma multa de metade do valor. A FIFA enquadrou o episódio como provocação, mas não quis aplicar punições mais mais duras. 

O desfecho gerou uma mobilização improvável. Torcedores abriram uma vaquinha online para pagar as multas dos jogadores. Em menos de 24 horas, foram arrecadados quase 12 mil euros. O ministro do Comércio e Indústria do Kosovo, Bajram Hasani, doou 1.500 euros, equivalente ao seu salário mensal. “Eles foram punidos apenas porque não esqueceram suas raízes, não esqueceram de onde vieram”, disse ele. Raramente uma multa da FIFA foi paga com tanto orgulho coletivo e patriótico. 

O ministro do Comércio e Indústria do Kosovo, Bajram Hasani: “Eles foram punidos apenas porque não esqueceram suas raízes, não esqueceram de onde vieram” (Crédito: Reprodução)

Uma proeza estatisticamente absurda 

A Suíça conseguiu registrar uma das proezas mais bizarras, frustrantes e estatisticamente improváveis da história das Copas do Mundo durante o mundial da Alemanha, em 2006. A seleção foi eliminada sem sofrer um único gol sequer com a bola rolando, um recorde de invulnerabilidade defensiva que provavelmente tão cedo não será igualado. Eles conseguiram blindar a sua meta de forma impecável, mas esqueceram que o futebol também exige balançar a rede adversária. 

A campanha suíça começou com um empate sem gols contra a França, seguido por vitórias sólidas de dois a zero contra o Togo e a Coreia do Sul, garantindo a liderança do grupo com a defesa completamente intacta. Veio o confronto das oitavas com a Ucrânia no estádio de Colônia. Um jogo tão monótono que a imprensa o chamou de “o pior da história da Copa”. 120 minutos de futebol que não definiram absolutamente nada, exceto a necessidade de uma decisão por pênaltis. E foi aí que a Suíça entrou para a história pela porta dos fundos. 

Na disputa de pênaltis, a Suíça alcançou o ápice do absurdo ao errar todas as suas cobranças de forma consecutiva. Marco Streller e Ricardo Cabanas viram seus chutes pararem nas mãos do goleiro ucraniano Oleksandr Shovkovskiy, enquanto Tranquillo Barnetta carimbou o travessão com violência. O vexame histórico selou a eliminação por três a zero nos pênaltis, mandando para casa uma seleção invicta que descobriu, da maneira mais dolorosa, que a neutralidade absoluta no placar pode ser fatal. 

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