Ciro Nogueira comprou terreno à beira-mar com dinheiro vivo em Barra Grande
Escritura aponta sociedade entre senador, empresário Carlos Santana e aliado político em terreno de Barra Grande; dois anos depois, parlamentar apresentou emenda que beneficiou empresa do sócio
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress Senador Ciro Nogueira (PP)
O senador piauiense Ciro Nogueira (PP) comprou com dinheiro vivo, em sociedade com o empresário Carlos Santana e o político José Trabulo Júnior, a posse de um terreno de mais de 800 metros quadrados em Barra Grande, no município de Cajueiro da Praia, no litoral do Piauí. Segundo escritura pública obtida pelo ICL Notícias, o negócio foi concretizado em 25 de janeiro de 2021 e o pagamento foi registrado como feito em “moeda corrente e legal do país”, expressão utilizada no documento para indicar pagamento em dinheiro vivo.
Empresário Carlos Santana | Foto: ICL Notícias
O negócio imobiliário ganhou destaque em uma investigação publicada pelo ICL Notícias sobre a relação entre Ciro Nogueira e Carlos Santana, empresário fundador da Tecnobank. Segundo a reportagem, os dois mantêm uma relação de amizade e também realizaram outros negócios em conjunto ou por meio de empresas ligadas a eles.
A compra do terreno ocorreu cerca de dois anos antes de Ciro Nogueira apresentar, em 3 de fevereiro de 2023, uma emenda à Medida Provisória nº 1.153/2022 que alterou regras relacionadas ao registro de contratos e gravames de veículos. A investigação do ICL Notícias aponta que a mudança legislativa beneficiou empresas registradoras, entre elas a Tecnobank, que tinha Carlos Santana como controlador à época.
A aquisição do imóvel ocorreu em 2021 e a apresentação da emenda aconteceu em 2023.
Compra do terreno em Barra Grande
A propriedade está localizada em uma das áreas turísticas mais valorizadas do litoral piauiense. Barra Grande, em Cajueiro da Praia, é conhecida pelas praias e pela prática de kitesurf e fica a aproximadamente 400 quilômetros de Teresina.
De acordo com a escritura citada pelo ICL Notícias, Ciro Nogueira adquiriu o imóvel em sociedade com Carlos Santana e José Trabulo Júnior, que já havia trabalhado como assessor parlamentar do senador no Senado.
Trecho da escritura do terreno | Foto: ICL Notícias
Na época da compra, Trabulo ocupava, por indicação de Ciro Nogueira, um cargo de diretoria na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), segundo a reportagem. Posteriormente, durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, ele também ocupou cargo na Caixa Econômica Federal.
O documento imobiliário registra que o pagamento pela área foi recebido pela vendedora em “moeda corrente e legal do país”. A expressão é o principal ponto destacado pela investigação sobre a forma de pagamento do imóvel.
A posse do terreno posteriormente se tornou objeto de disputa judicial. O Governo do Piauí alegou ter um acordo com a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) para utilizar uma área de mais de 9 mil metros quadrados na orla de Barra Grande em um projeto de urbanização. Segundo a administração estadual, o imóvel adquirido pelo grupo estaria dentro dessa área.
Parte do Terreno | Foto: ICL Notícias
O caso gerou processos na Justiça do Piauí. Conforme a reportagem do ICL Notícias, decisões judiciais reconheceram, até então, o direito de Ciro Nogueira e Carlos Santana de manter a posse do imóvel, embora a disputa não tenha tido desfecho definitivo.
Dois anos depois, Ciro apresentou emenda que beneficiou empresa de Santana
Em 3 de fevereiro de 2023, primeiro dia de trabalho dos congressistas na nova legislatura, Ciro Nogueira apresentou uma emenda à MP 1.153/2022, medida provisória editada no fim do governo Jair Bolsonaro.
Trecho da emenda | Foto: ICL Notícia
A MP tratava de diferentes assuntos, entre eles regras relacionadas ao Código de Trânsito Brasileiro, à exigência de exame toxicológico para motoristas e ao seguro de cargas.
Segundo o ICL Notícias, Ciro incluiu no texto uma alteração que tornou exclusividade das empresas registradoras a prerrogativa de realizar determinados registros de gravames de veículos. A Tecnobank, empresa que tinha Carlos Santana como proprietário, atuava justamente nesse mercado.
A investigação classificou a inclusão como um “jabuti”, termo usado no Congresso para designar a inserção, em uma proposta legislativa, de matéria sem relação direta com o tema original.
A emenda apresentada por Ciro foi aprovada durante a tramitação da medida provisória e posteriormente incorporada à legislação.
Documentos analisados pelo ICL Notícias também apontaram que uma emenda de conteúdo idêntico foi apresentada na Câmara dos Deputados pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). Segundo a reportagem, os arquivos das duas propostas apresentavam semelhanças, inclusive na justificativa.
Relação entre Ciro Nogueira e Carlos Santana
A relação entre o senador e o empresário não se limita à compra do terreno em Barra Grande.
Em maio de 2023, semanas após a apresentação da emenda, Ciro Nogueira participou com Carlos Santana do LIDE Brazil Investment Forum, em Nova York. Durante o evento, o senador chamou Santana de “meu amigo” ao mencionar uma conversa que havia tido com o empresário.
Além do imóvel no litoral piauiense, outra transação citada pela investigação ocorreu em São Paulo. Em abril de 2025, uma empresa ligada à família de Ciro Nogueira vendeu por R$ 6,5 milhões um apartamento no Jardim Paulista para a Aliqum Participações, empresa administrada por Carlos Santana e familiares, conforme documentos mencionados na reportagem.
O empresário também aparece relacionado a uma empresa proprietária de aeronave utilizada pelo Partido Progressistas. Segundo dados de prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) citados pelo ICL Notícias, o partido pagou mais de R$ 355 mil, entre 2024 e 2025, à empresa Cavok Participações, ligada a Santana.
Empresário confirma amizade e nega influência na legislação
Procurado pelo ICL Notícias, Carlos Santana confirmou a relação de amizade e a realização de negócios com Ciro Nogueira, mas negou ter utilizado a proximidade com o senador para interferir na legislação.
“Mantenho uma relação de amizade com o senador Ciro Nogueira há quase uma década e também já realizei negócios com ele. Todas essas operações foram lícitas, transparentes, formalizadas por meio do sistema bancário e devidamente declaradas aos órgãos competentes, inclusive à Receita Federal”, afirmou.
Santana também declarou que, durante sua gestão na Tecnobank, não se aproveitou de amizades para interferir no ambiente regulatório e que conduziu a empresa de forma republicana.
A Tecnobank, por sua vez, negou que a alteração legislativa tenha proporcionado benefício comercial à companhia. Em nota, afirmou que sua participação no mercado nacional caiu de 29,5%, em 2023, para 27,3%, ao final de 2025, e sustentou que a mudança teria ampliado a concorrência no setor.
A empresa também afirmou que mais de 40 companhias atuam atualmente no mercado e negou qualquer prática anticoncorrencial.
Ciro Nogueira não respondeu à investigação
O ICL Notícias informou que procurou Ciro Nogueira para responder aos questionamentos sobre a relação com Carlos Santana, os negócios imobiliários e a emenda apresentada à MP 1.153/2022, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem. O espaço foi mantido aberto para manifestação.
O caso reúne, portanto, negócios privados, uma sociedade imobiliária no litoral do Piauí e uma alteração legislativa relacionada ao setor em que atuava uma empresa de um dos sócios. A compra do terreno ocorreu em janeiro de 2021, com pagamento registrado em dinheiro na escritura, enquanto a emenda de Ciro Nogueira foi apresentada em fevereiro de 2023 e posteriormente incorporada à legislação.
A existência dessa sequência de fatos, por si só, não comprova que a compra do imóvel tenha relação causal com a apresentação da emenda. A conexão entre os episódios é uma das questões levantadas pela investigação jornalística do ICL Notícias a partir dos documentos e das relações empresariais identificadas.